Tomografia computadorizada
Resumo rápido: A tomografia computadorizada gira um tubo de raios X ao redor do corpo e monta imagens em fatias finas, com muito mais detalhe que a radiografia comum. O resultado é um laudo descritivo cheio de termos técnicos: densidade, realce, unidades Hounsfield, nódulo.
O que é
A tomografia computadorizada é um exame de raios X que gira em volta de você. Em vez de uma única imagem achatada como na radiografia, o aparelho captura centenas de projeções em ângulos diferentes e o computador reconstrói o corpo em fatias finas, que podem depois ser remontadas em qualquer plano.
Isso resolve o principal problema do raio-X comum, que é a sobreposição de estruturas. Na TC, cada fatia mostra uma camada isolada, o que permite ver órgãos, vasos, ossos e coleções de líquido separadamente.
Parte dos exames é feita com contraste iodado injetado na veia. O contraste circula pelo sangue e faz os vasos e os tecidos com muita irrigação aparecerem mais claros, o que ajuda a caracterizar lesões e a ver o que está inflamado ou sangrando. Nem toda TC precisa de contraste, e quem define é o médico que solicitou o exame junto com o radiologista.
A TC usa radiação ionizante, em quantidade maior que a de uma radiografia simples. Não é motivo para recusar um exame indicado, mas é motivo para não fazer tomografia por conta própria nem repetir sem necessidade.
Para que serve
Avaliar quadros agudos
É o exame padrão em trauma, suspeita de apendicite, cálculo renal com dor aguda, sangramento e dor abdominal sem causa definida.
Caracterizar achados de outros exames
Um nódulo visto no ultrassom ou uma alteração na radiografia costumam ser detalhados pela tomografia, que separa melhor os tecidos.
Estudar o pulmão
A TC de tórax mostra o parênquima pulmonar com um nível de detalhe que a radiografia não alcança, incluindo nódulos de poucos milímetros.
Planejar cirurgia e tratamento
As reconstruções em três dimensões dão ao cirurgião o mapa exato de vasos, ossos e estruturas antes do procedimento.
Acompanhar doenças conhecidas
Serve para medir se uma lesão cresceu, estabilizou ou reduziu ao longo do tempo, com medidas comparáveis entre exames.
Como é feito e preparo
Coleta
Você deita numa mesa que desliza para dentro de um anel largo e aberto. O aparelho não é um tubo fechado, o que torna a claustrofobia bem menos comum que na ressonância. Vão pedir que você fique imóvel e, no exame de tórax e abdome, que prenda a respiração por alguns segundos. A aquisição das imagens leva poucos segundos ou alguns minutos.
Preparo
Depende da região e do uso de contraste. Para exames com contraste iodado na veia, costuma-se pedir jejum de 4 a 6 horas e um exame de creatinina recente para avaliar a função dos rins, principalmente em pessoas com diabetes, doença renal ou idade avançada. Em TC de abdome, alguns serviços pedem que você beba contraste diluído em água na hora que antecede o exame. Avise a equipe se já teve reação a contraste, se tem alergia conhecida, se usa metformina, se está grávida ou se amamenta. Objetos de metal na região examinada são retirados.
Metodologia habitual: Tomografia computadorizada multidetectores, com ou sem contraste iodado intravenoso, em fases definidas conforme a indicação.
Termos do laudo, traduzidos
O laudo deste exame é descritivo, não um número com faixa de referência. Estes são os termos que mais aparecem e o que costumam significar.
- Densidade / atenuação
- É o quanto um tecido freia os raios X. Osso freia muito e aparece branco. Ar quase não freia e aparece preto. Gordura, água e tecidos moles ficam em tons de cinza entre os dois. Quando o laudo fala em densidade, está descrevendo a tonalidade daquela estrutura na imagem.
- Unidades Hounsfield (UH)
- A escala numérica que mede essa densidade. Por convenção, água vale 0 UH e ar vale cerca de -1000 UH. Gordura fica em valores negativos, tecidos moles em torno de 30 a 60 UH e osso em centenas. O radiologista usa esse número para dizer, por exemplo, que uma lesão do rim é líquido puro e não algo sólido.
- Hipodenso
- Mais escuro que o tecido ao redor, porque freia menos os raios X. Cistos, gordura e áreas com líquido são hipodensos. É descrição de tonalidade, não de gravidade.
- Hiperdenso
- Mais claro que o tecido vizinho. Sangue recente, calcificações e cálculos são hiperdensos. Esse é o motivo pelo qual a TC sem contraste é tão boa para procurar sangramento agudo e pedra no rim.
- Realce pelo contraste
- A lesão ficou mais clara depois da injeção do contraste na veia, o que indica que ela recebe sangue. Realce não significa câncer. O que importa para o radiologista é o padrão: quanto realçou, em qual fase e como o contraste entrou e saiu. Um cisto simples, por exemplo, não realça, e é isso que confirma que é só líquido.
- Nódulo pulmonar
- Uma opacidade arredondada no pulmão, com até 3 centímetros. É um achado frequente, e a esmagadora maioria dos nódulos pequenos encontrados por acaso é benigna, muitas vezes cicatriz de infecção antiga. O que orienta a conduta é o tamanho, o aspecto, se é sólido ou em vidro fosco e o seu risco pessoal, principalmente histórico de tabagismo. Existem protocolos consagrados que definem se o nódulo apenas é acompanhado com TC de controle ou se merece investigação adicional.
- Nódulo em vidro fosco
- Área de densidade aumentada no pulmão através da qual ainda dá para ver os vasos, como um vidro embaçado. Aparece em infecções, inflamações e em algumas lesões de crescimento lento. Muitos desaparecem no controle feito depois de algumas semanas, o que já resolve a dúvida.
- Lesão focal
- Uma área localizada com aspecto diferente do órgão ao redor. É um termo propositalmente neutro: o radiologista viu algo delimitado e está descrevendo, sem afirmar do que se trata. A caracterização vem do comportamento com contraste, do tamanho e da comparação com exames anteriores.
- Espessamento parietal
- A parede de uma estrutura oca, como intestino, estômago ou vesícula, está mais grossa que o esperado. Aparece em inflamação, infecção e em outras condições. Também pode ser falso, quando a alça está vazia e colabada no momento do exame.
- Densificação da gordura / borramento dos planos gordurosos
- A gordura em volta de um órgão perdeu o aspecto homogêneo e ficou com aspecto de sujeira na imagem. Costuma indicar processo inflamatório naquela região, e é um dos sinais usados no diagnóstico de apendicite e diverticulite.
- Calcificação
- Depósito de cálcio, muito branco na imagem. Aparece em cicatrizes antigas, em placas nas artérias e em vários achados benignos. Em nódulo pulmonar, um padrão específico de calcificação é um dos indicativos mais tranquilizadores de que a lesão é antiga e benigna.
- Artefato
- Distorção da imagem causada por algo que não é doença: movimento durante a aquisição, prótese metálica, marca-passo ou implante dentário. O laudo registra o artefato para explicar por que determinada região ficou mal avaliada.
- Sem alterações tomográficas significativas
- Nada relevante foi encontrado nas estruturas avaliadas por esse protocolo. Vale prestar atenção na palavra protocolo: uma TC sem contraste feita para procurar cálculo renal não responde as mesmas perguntas que uma TC com contraste em várias fases.
- Correlacionar com o quadro clínico / sugere-se correlação clínica
- Frase padrão de laudo, e uma das que mais gera ansiedade sem motivo. O radiologista está dizendo que a imagem sozinha não fecha a interpretação e que ela precisa ser lida junto com os seus sintomas e exames. Quem faz essa junção é o médico que pediu a tomografia.
O que pode interferir no resultado
- Movimento durante a aquisição, que borra as imagens e pode exigir repetição
- Próteses metálicas, placas, parafusos e implantes dentários, que criam artefatos na região
- Ausência de contraste quando ele seria necessário para caracterizar a lesão em questão
- Fase de aquisição inadequada para o que se quer avaliar, já que órgãos diferentes exigem tempos diferentes após a injeção
- Pouca gordura entre os órgãos, o que reduz o contraste natural entre as estruturas
- Exames anteriores indisponíveis para comparação, o que dificulta dizer se algo é novo ou já existia
Quando procurar ajuda
Leve o laudo e as imagens ao médico que pediu o exame, e leve também os exames anteriores da mesma região, porque comparar é metade da interpretação. Depois de tomografia com contraste, procure atendimento se aparecerem placas na pele, coceira intensa, inchaço no rosto, falta de ar, ou se a região da punção ficar muito dolorida, inchada e endurecida. Achados descritos como suspeitos, indeterminados ou que pedem investigação adicional merecem consulta em prazo curto, não porque o diagnóstico esteja fechado, mas porque definir o próximo passo cedo simplifica tudo.
Perguntas para levar à consulta
- Esse achado explica o sintoma que motivou o exame?
- Era necessário contraste nesse caso ou o exame sem contraste responde a pergunta?
- Existe exame anterior meu para comparação e o que mudou entre eles?
- Se for para acompanhar, em quanto tempo repito e com qual protocolo?
- Considerando a radiação, faz sentido usar ultrassom ou ressonância no seguimento?
Perguntas frequentes
Tomografia com contraste faz mal para o rim?
O risco existe, mas é bem menor do que se acreditava por muitos anos. Em pessoas com função renal normal, a chance de lesão pelo contraste iodado é baixa. A atenção se concentra em quem já tem doença renal, desidratação ou usa medicamentos que afetam os rins. Por isso muitos serviços pedem creatinina recente antes do exame com contraste.
Quanta radiação tem uma tomografia?
Depende muito da região e do protocolo. Uma TC costuma entregar uma dose equivalente a algo entre dezenas e algumas centenas de radiografias de tórax, e uma TC de abdome fica no patamar de alguns anos de radiação natural de fundo. O risco de um exame isolado é pequeno e o benefício de um exame bem indicado supera esse risco. O que se evita é o acúmulo de exames repetidos sem necessidade, principalmente em crianças e jovens.
Nódulo pulmonar na tomografia é câncer?
Quase sempre não. Nódulos pulmonares pequenos são achados comuns e a maioria é benigna, com frequência cicatriz de infecção antiga. Tamanho, densidade, contorno, presença de calcificação e histórico de tabagismo é que orientam a conduta. Muitos casos são apenas acompanhados com tomografia de controle em intervalos definidos, e a estabilidade ao longo do tempo é um dado tranquilizador.
Posso fazer tomografia grávida?
A gestação não é uma proibição absoluta, mas exige avaliação individual. Sempre que outro método sem radiação responder a pergunta, ultrassom e ressonância são preferidos. Quando a tomografia é necessária para uma decisão urgente, ela pode ser feita com ajuste de protocolo. Avise a equipe se você está grávida ou se há chance de estar.
O que são unidades Hounsfield no laudo?
É a escala que mede a densidade de cada estrutura na tomografia. Água vale 0 e ar vale cerca de -1000. O radiologista usa esse número para dizer do que uma lesão é feita: valores próximos de zero indicam líquido, valores negativos indicam gordura, valores muito altos indicam cálcio.
Preciso de jejum para tomografia?
Para exames sem contraste, em geral não. Para exames com contraste na veia, a maioria dos serviços pede jejum de 4 a 6 horas. Como o protocolo varia conforme a região e o aparelho, confirme a orientação no serviço onde o exame será feito.
Tomografia ou ressonância, qual é melhor?
Não existe melhor no geral, existe melhor para cada pergunta. A tomografia é rápida, ótima para osso, sangramento agudo, pulmão e situações de urgência. A ressonância detalha melhor tecidos moles, cérebro, medula, fígado e articulações, e não usa radiação, mas é demorada e tem restrições para quem tem implantes metálicos.
O que significa correlação clínica no laudo da tomografia?
É a forma padrão de o radiologista dizer que a imagem precisa ser interpretada junto com seus sintomas, seu exame físico e seus exames de sangue. Não é sinal de que algo grave foi encontrado. Quem faz essa junção é o médico que solicitou a tomografia.
Fontes e revisão
- ACR Manual on Contrast Media. American College of Radiology (ACR) , 2024.
- ACR Appropriateness Criteria. American College of Radiology (ACR) , 2024.
- Guidelines for Management of Incidental Pulmonary Nodules Detected on CT Images: From the Fleischner Society 2017. Fleischner Society, publicado em Radiology , 2017.
- Radiological Protection in Medicine, ICRP Publication 105. International Commission on Radiological Protection (ICRP) , 2007.
Escrito por: Equipe editorial Entenda Meu Exame
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