Triglicerídeos
Resumo rápido: Os triglicerídeos são a principal forma de gordura circulante e de reserva do corpo. É o exame do perfil lipídico que mais muda com a última refeição, por isso o valor desejável é diferente com jejum, abaixo de 150 mg/dL, e sem jejum, abaixo de 175 mg/dL.
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Abaixo de 150 mg/dL é o valor desejável para coleta com 12 horas de jejum, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia. Se o seu exame foi sem jejum, o corte desejável sobe para 175 mg/dL, então um valor de 160 sem jejum também está dentro. Confira no laudo qual foi a condição da coleta. Estar dentro da faixa não quer dizer que o resultado seja adequado para toda situação: idade, sintomas, histórico e outros exames também entram na leitura.
O que é
Triglicerídeos são moléculas de gordura formadas por glicerol e três ácidos graxos. É nessa forma que o corpo armazena energia no tecido adiposo e a transporta pelo sangue. Parte vem da alimentação, parte é produzida pelo próprio fígado a partir de carboidrato e álcool em excesso.
No sangue eles circulam dentro de duas lipoproteínas principais: os quilomícrons, que carregam a gordura absorvida no intestino, e o VLDL, produzido pelo fígado. Depois de uma refeição os triglicerídeos sobem e levam de seis a doze horas para voltar ao valor de base. Foi por causa dessa oscilação que o jejum virou o padrão histórico do exame.
Do ponto de vista cardiovascular, triglicerídeos altos raramente aparecem sozinhos. Costumam vir com HDL baixo, cintura aumentada e resistência à insulina, o conjunto que a literatura chama de dislipidemia aterogênica. As partículas remanescentes desse metabolismo também se depositam na parede das artérias.
Acima de 500 mg/dL a preocupação muda de assunto. Nessa faixa o risco relevante deixa de ser apenas cardiovascular e passa a incluir pancreatite aguda, uma complicação que pode ser grave e exige avaliação rápida.
Para que serve
Completar o perfil lipídico
Junto de colesterol total e HDL, é o que permite calcular o LDL pela fórmula de Friedewald na maioria dos laudos.
Identificar risco de pancreatite
Valores acima de 500 mg/dL, e principalmente acima de 880 mg/dL, colocam a hipertrigliceridemia como causa possível de pancreatite aguda.
Sinalizar resistência à insulina
Triglicerídeos iguais ou acima de 150 mg/dL entram nos critérios de síndrome metabólica e costumam acompanhar alterações da glicemia.
Acompanhar mudanças de hábito
É o item do perfil lipídico que responde mais rápido a redução de álcool, de açúcar e de peso, o que o torna útil no acompanhamento.
Investigar esteatose hepática
Triglicerídeos altos aparecem com frequência na avaliação de gordura no fígado, junto de enzimas hepáticas e ultrassonografia.
Como é feito e preparo
Coleta
Uma amostra de sangue venoso do braço, na mesma punção do restante do perfil lipídico.
Preparo
Este é o ponto que mais gera dúvida. Desde 2016, o consenso brasileiro e o consenso europeu sobre perfil lipídico aceitam a coleta sem jejum para a avaliação de rotina, com um valor de corte diferente: abaixo de 150 mg/dL quando há jejum de 12 horas e abaixo de 175 mg/dL quando não há. O jejum continua sendo pedido em situações específicas, como triglicerídeos muito altos em exame anterior, acompanhamento de hipertrigliceridemia grave, suspeita de dislipidemia genética ou necessidade de comparar com exames antigos feitos em jejum. Duas orientações valem nos dois casos: evite álcool nas 24 horas anteriores e não faça o exame logo depois de uma refeição muito gordurosa se o pedido for sem jejum, porque o objetivo é medir o seu padrão habitual.
Metodologia habitual: Método enzimático colorimétrico automatizado.
Valores de referência
- Adequado
- Limítrofe
- Alto
Deslize a tabela para o lado
| Perfil | Faixa habitual |
|---|---|
| Adultos, coleta com jejum de 12 horas Valor desejável pela SBC | abaixo de 150 mg/dL |
| Adultos, coleta sem jejum Corte diferente adotado pelo consenso brasileiro e pelo consenso europeu | abaixo de 175 mg/dL |
| Crianças de 0 a 9 anos Referência pediátrica, coleta com jejum | abaixo de 75 mg/dL |
| Adolescentes de 10 a 19 anos Referência pediátrica, coleta com jejum | abaixo de 90 mg/dL |
| Critério de síndrome metabólica Junto de cintura, HDL, glicemia e pressão | 150 mg/dL ou mais conta como alterado |
| Risco de pancreatite Acima de 880 mg/dL o risco é considerado alto o bastante para conduta imediata | acima de 500 mg/dL |
As faixas variam conforme laboratório e condição de coleta. Confira no seu laudo se houve jejum, porque o mesmo número pode estar dentro ou fora do desejável dependendo dessa informação. Os triglicerídeos também têm a maior variação biológica do perfil lipídico: duas coletas da mesma pessoa em semanas diferentes podem divergir 20% ou mais sem que nada tenha mudado.
Dentro do desejável
Abaixo de 150 mg/dL é o valor desejável para coleta com 12 horas de jejum, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia. Se o seu exame foi sem jejum, o corte desejável sobe para 175 mg/dL, então um valor de 160 sem jejum também está dentro. Confira no laudo qual foi a condição da coleta.
Limítrofe
Faixa acima do desejável de jejum e, a partir de 175 mg/dL, acima do desejável também sem jejum. É a zona em que os triglicerídeos costumam aparecer junto de HDL baixo, cintura aumentada e glicemia no limite. Vale lembrar que 150 mg/dL é o corte usado nos critérios de síndrome metabólica.
Alto
Acima de 200 mg/dL o valor é considerado alto em qualquer condição de coleta e costuma motivar investigação de causas secundárias, como diabetes descompensado, álcool, hipotireoidismo, doença renal e medicamentos. A partir de 500 mg/dL entra a preocupação com pancreatite aguda, e acima de 880 mg/dL as diretrizes tratam o quadro como hipertrigliceridemia grave, com necessidade de conduta rápida.
Resultado alto e resultado baixo
Resultado alto
Triglicerídeos altos costumam refletir o balanço entre o que entra, o que o fígado produz e o quanto o organismo consegue limpar do sangue. Álcool, excesso de calorias e resistência à insulina são as explicações mais comuns. Antes de tirar conclusões, vale confirmar as condições da coleta, porque uma refeição recente pode explicar boa parte da elevação.
- Excesso de calorias, açúcar e carboidrato refinado na alimentação
- Consumo de álcool, mesmo alguns dias antes da coleta
- Obesidade abdominal e resistência à insulina
- Diabetes tipo 2 descompensado
- Hipotireoidismo não tratado
- Doença renal crônica e síndrome nefrótica
- Gestação, sobretudo no terceiro trimestre
- Medicamentos como corticoides, estrogênio oral, tamoxifeno, isotretinoína, betabloqueadores, antirretrovirais e alguns antipsicóticos
- Causas genéticas, da hipertrigliceridemia familiar à deficiência de lipase lipoproteica
Resultado baixo
Triglicerídeos baixos raramente preocupam e quase nunca são o motivo de uma investigação. Costumam significar apenas jejum prolongado ou alimentação com pouca gordura. Valores persistentemente muito baixos, sem tratamento e sem dieta restritiva, podem apontar para outra condição.
- Jejum prolongado antes da coleta
- Ingestão calórica muito baixa ou dieta com pouca gordura
- Hipertireoidismo
- Má absorção intestinal, como na doença celíaca
- Uso de fibratos ou de ômega 3 em dose alta
- Desnutrição e doenças consumptivas
- Causas genéticas raras, como a abetalipoproteinemia
O que pode interferir no resultado
- Refeição nas horas anteriores, que é a maior fonte de variação deste exame
- Álcool consumido entre 24 e 72 horas antes da coleta
- Jejum muito prolongado, acima do recomendado
- Infecção, cirurgia ou infarto nas últimas semanas
- Diabetes descompensado no período do exame
- Gestação
- Medicamentos como corticoides, estrogênio oral, isotretinoína e antirretrovirais
- Variação biológica entre coletas, maior que a dos outros itens do perfil lipídico
Quando procurar ajuda
Leve o resultado ao médico quando os triglicerídeos estiverem acima da faixa do seu laudo, principalmente se houver diabetes, pressão alta, cintura aumentada ou HDL baixo no mesmo exame. Valores acima de 500 mg/dL merecem avaliação sem demora, e acima de 880 mg/dL a orientação das diretrizes é conduta rápida por causa do risco de pancreatite. Dor forte na parte alta do abdome, que irradia para as costas, com náusea e vômito, em quem tem triglicerídeos muito altos, é situação de pronto atendimento, não de agendamento de consulta.
Perguntas para levar à consulta
- Meu exame foi feito com ou sem jejum, e isso muda a leitura do meu resultado?
- Existe alguma causa secundária, como tireoide, rim ou medicamento, por trás desse valor?
- Meus triglicerídeos altos aparecem junto de outros sinais de síndrome metabólica?
- Preciso repetir o exame em jejum antes de qualquer decisão?
- Em quanto tempo devo refazer o perfil lipídico para acompanhar?
Perguntas frequentes
Triglicerídeos 250 é alto?
Sim, em qualquer condição de coleta. O desejável é abaixo de 150 mg/dL com jejum de 12 horas e abaixo de 175 mg/dL sem jejum, e 250 fica acima dos dois cortes. Esse valor costuma motivar a checagem de álcool, glicemia, tireoide e medicamentos em uso, além da avaliação do restante do perfil lipídico.
Preciso de jejum para dosar triglicerídeos?
Para a rotina, não. O consenso brasileiro de 2016 aceita a coleta sem jejum, com um valor de corte mais alto, 175 mg/dL em vez de 150. O jejum de 12 horas continua sendo pedido quando os triglicerídeos já vieram muito altos antes, quando há suspeita de dislipidemia genética ou quando o médico precisa comparar com exames antigos feitos em jejum.
Bebi cerveja ontem. Isso altera o exame?
Altera, e bastante. O álcool aumenta a produção hepática de triglicerídeos e o efeito pode durar alguns dias. Uma noite de bebida antes da coleta é uma das causas mais comuns de resultado alto inesperado. Se foi o seu caso, avise o médico, porque provavelmente vale repetir o exame.
Triglicerídeos 600 é perigoso?
Acima de 500 mg/dL a hipertrigliceridemia passa a ser reconhecida como causa possível de pancreatite aguda, então 600 é um valor que pede avaliação médica sem esperar meses. Também costuma inviabilizar o cálculo do LDL pela fórmula usual, e o laboratório pode precisar de outro método. Procure quem solicitou o exame.
Qual a diferença entre triglicerídeos e colesterol?
São gorduras diferentes com funções diferentes. O colesterol entra na composição de membranas celulares, hormônios e ácidos biliares. Os triglicerídeos são estoque e transporte de energia. Os dois circulam dentro das mesmas lipoproteínas e por isso aparecem no mesmo exame, mas respondem a estímulos distintos: os triglicerídeos são muito mais sensíveis a refeição, açúcar e álcool.
Triglicerídeos altos com colesterol normal, o que significa?
É um padrão frequente e costuma apontar para o lado metabólico. Aparece em quem tem gordura abdominal, sedentarismo, consumo alto de álcool ou de açúcar, e resistência à insulina. A avaliação nesses casos costuma incluir glicemia, hemoglobina glicada, enzimas hepáticas e medida da circunferência abdominal, além do perfil lipídico completo.
Em quanto tempo os triglicerídeos baixam?
É o item do perfil lipídico que responde mais rápido. Reduzir álcool, açúcar e excesso de calorias pode mudar o valor em poucas semanas, e as reavaliações costumam ser marcadas em torno de dois a três meses. Isso não vale para as formas genéticas, em que a resposta a mudanças de hábito é bem menor.
Triglicerídeos baixos é ruim?
Quase nunca. Valores baixos costumam ser só reflexo de jejum prolongado ou de alimentação com pouca gordura. Quando o resultado se mantém muito baixo sem dieta restritiva e sem medicamento, a investigação costuma olhar para tireoide, absorção intestinal e estado nutricional.
Fontes e revisão
- Atualização da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose. Sociedade Brasileira de Cardiologia, Arquivos Brasileiros de Cardiologia , 2017.
- I Consenso Brasileiro para a Normatização da Determinação Laboratorial do Perfil Lipídico. Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML) e Sociedade Brasileira de Cardiologia , 2016.
- Fasting is not routinely required for determination of a lipid profile: clinical and laboratory implications including flagging at desirable concentration cut-points. European Atherosclerosis Society e European Federation of Clinical Chemistry and Laboratory Medicine, European Heart Journal , 2016.
- 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias: lipid modification to reduce cardiovascular risk. European Society of Cardiology e European Atherosclerosis Society , 2019.
Escrito por: Equipe editorial Entenda Meu Exame
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