Endoscopia digestiva alta
Resumo rápido: A endoscopia digestiva alta examina esôfago, estômago e a primeira parte do intestino delgado com uma câmera flexível. O laudo costuma vir com termos que parecem graves e raramente são, como gastrite enantematosa leve de antro.
O que é
A endoscopia digestiva alta usa um tubo fino e flexível com câmera na ponta, introduzido pela boca, que percorre o esôfago, o estômago e o duodeno. O médico observa a mucosa em tempo real e pode fotografar cada segmento.
Além de olhar, o exame permite agir: coletar biópsias, pesquisar a bactéria Helicobacter pylori, retirar pólipos pequenos, dilatar estreitamentos e tratar sangramentos. Boa parte das indicações combina diagnóstico e tratamento no mesmo momento.
O procedimento é feito com sedação na maioria dos serviços brasileiros, e dura em torno de 10 a 20 minutos. Você não sente dor e geralmente não guarda lembrança do exame.
Uma parte importante do resultado não sai no dia. Quando há biópsia, o material vai para o laboratório de patologia e o laudo definitivo chega semanas depois. Os dois documentos precisam ser lidos juntos por quem pediu o exame.
Para que serve
Investigar dor no estômago e azia
Dor epigástrica persistente, queimação e refluxo que não melhoram com o tratamento inicial são as indicações mais frequentes.
Pesquisar Helicobacter pylori
A biópsia durante o exame permite identificar a bactéria mais associada à úlcera péptica e à gastrite crônica.
Encontrar a origem de sangramento
Vômito com sangue, fezes escuras e anemia por falta de ferro sem explicação levam à inspeção direta do trato digestivo alto.
Avaliar dificuldade para engolir
Sensação de comida parando, engasgos e emagrecimento sem causa clara pedem visualização do esôfago.
Diagnosticar doença celíaca
Biópsias do duodeno fazem parte da confirmação da doença celíaca, junto com os exames de sangue específicos.
Como é feito e preparo
Coleta
Você chega em jejum e recebe acesso venoso para a sedação. Um bocal de plástico é colocado entre os dentes para proteger o aparelho e você deita de lado. O endoscópio desce pelo esôfago e o médico insufla ar para abrir as paredes e enxergar toda a mucosa. Fotos são registradas em cada segmento, e biópsias são feitas quando indicadas, o que não dói. O exame leva de 10 a 20 minutos. Depois há um período de observação até a sedação passar, a garganta costuma ficar um pouco anestesiada por algum tempo, e você não pode dirigir nem ir embora sozinho.
Preparo
O jejum é o ponto central e costuma ser de 8 horas para alimentos sólidos, com líquidos claros liberados até algumas horas antes conforme o protocolo do serviço. Estômago com resto de comida impede a visualização, pode obrigar a interromper o exame e aumenta o risco de aspiração durante a sedação. Leve a lista completa de medicamentos que você usa. Avise o serviço com antecedência se toma anticoagulante ou antiagregante, se usa insulina ou medicação para diabetes, e se faz uso de inibidor de bomba de prótons, porque esse último costuma precisar ser suspenso com algumas semanas de antecedência quando o objetivo é pesquisar H. pylori, sob orientação do médico. Não suspenda nada por conta própria. Informe também se tem alergias, se já teve reação a sedação, se usa prótese dentária removível e se tem alguma doença cardíaca ou respiratória. Organize alguém para acompanhar você na volta.
Metodologia habitual: Videoendoscopia digestiva alta com sedação, com inspeção do esôfago, estômago e duodeno, biópsias e teste de urease conforme a indicação.
Termos do laudo, traduzidos
O laudo deste exame é descritivo, não um número com faixa de referência. Estes são os termos que mais aparecem e o que costumam significar.
- Gastrite enantematosa
- Enantema quer dizer vermelhidão da mucosa. O termo descreve um estômago com o revestimento interno mais avermelhado que o habitual, e só. É o achado mais comum das endoscopias brasileiras e, na maior parte das vezes, é leve, restrito ao antro e sem relação clara com sintoma. Não é ferida, não é úlcera e não é câncer.
- Gastrite enantematosa leve de antro
- A versão mais frequente do achado acima, com a localização especificada. O antro é a porção final do estômago, perto da saída para o intestino. Essa combinação de palavras aparece em um número enorme de laudos de pessoas sem queixa nenhuma. O que dá sentido a ela é o resultado da biópsia e o seu quadro clínico.
- Gastrite erosiva
- Além da vermelhidão, existem pequenas falhas superficiais na mucosa, chamadas erosões. São mais rasas que uma úlcera. Aparecem com uso de anti-inflamatórios, álcool, estresse fisiológico intenso e infecção por H. pylori.
- Úlcera péptica
- Uma ferida mais profunda, que atravessa a camada superficial da mucosa do estômago ou do duodeno. As duas causas principais são a infecção por H. pylori e o uso de anti-inflamatórios. Úlceras gástricas costumam ser biopsiadas e reavaliadas por nova endoscopia após o tratamento, conduta que não se aplica da mesma forma às duodenais.
- Hérnia de hiato
- Uma parte do estômago desliza para cima através da abertura do diafragma por onde passa o esôfago. É um achado comum, principalmente com o passar dos anos, e muita gente convive com ele sem sintoma. Quando é maior, favorece o refluxo, porque enfraquece a barreira natural entre esôfago e estômago. O tamanho descrito no laudo é o dado que importa.
- Esofagite de refluxo
- Inflamação do esôfago causada pelo conteúdo ácido que sobe do estômago. Aparece como falhas na mucosa da parte inferior do esôfago. Nem toda pessoa com azia tem esofagite visível, e nem toda esofagite vem com azia intensa.
- Classificação de Los Angeles (graus A, B, C e D)
- A escala usada para medir a intensidade da esofagite de refluxo, pelo tamanho e pela extensão das falhas na mucosa. O grau A é o mais leve, com lesões de até 5 milímetros que não se unem, e é o mais frequente. O grau D é o mais extenso, com lesões que envolvem grande parte da circunferência do esôfago. A letra orienta a intensidade e a duração do tratamento definido pelo médico.
- Teste de urease positivo / pesquisa de H. pylori positiva
- A bactéria Helicobacter pylori foi encontrada no estômago. É uma infecção muito comum na população brasileira e está ligada à gastrite crônica, à úlcera péptica e, a longo prazo, a um risco aumentado de câncer gástrico em parte das pessoas. O tratamento é feito com esquema de antibióticos definido pelo médico, seguido de confirmação de que a bactéria foi eliminada.
- Metaplasia intestinal
- A mucosa do estômago foi substituída por um tecido parecido com o do intestino, em resposta a uma agressão prolongada, quase sempre gastrite crônica associada ao H. pylori. É considerada uma alteração pré-neoplásica, o que assusta na leitura, mas a maioria das pessoas com metaplasia nunca desenvolve câncer gástrico. O que muda é o acompanhamento: dependendo da extensão e do histórico familiar, o médico define um intervalo de endoscopias de controle.
- Atrofia gástrica
- Redução das glândulas do estômago depois de inflamação prolongada. Costuma vir junto com a metaplasia intestinal no mesmo contexto de gastrite crônica, e também entra na definição do intervalo de acompanhamento.
- Esôfago de Barrett
- A mucosa do esôfago inferior foi substituída por tecido do tipo intestinal, por causa de refluxo de longa data. Exige confirmação por biópsia e entra em programa de vigilância endoscópica em intervalos definidos. A progressão para lesões mais avançadas acontece em uma minoria pequena das pessoas, e é exatamente para acompanhar isso que a vigilância existe.
- Pangastrite
- A inflamação foi descrita em todo o estômago, e não apenas no antro. A distribuição importa porque padrões mais extensos costumam ser acompanhados com mais atenção, principalmente quando há H. pylori, atrofia ou metaplasia junto.
- Mucosa de aspecto normal / exame endoscópico normal
- Esôfago, estômago e duodeno estavam com aspecto habitual. Sintoma persistente com endoscopia normal é uma situação comum, e não quer dizer que a queixa seja inventada. Dispepsia funcional e refluxo sem lesão visível existem e têm abordagem própria.
- Biópsias encaminhadas para estudo histopatológico
- Foram colhidos fragmentos de tecido que estão no laboratório. O laudo do dia descreve o que se viu; o exame no microscópio é que define presença de H. pylori, grau da gastrite, atrofia, metaplasia e outras alterações. O prazo costuma ser de uma a três semanas.
O que pode interferir no resultado
- Jejum incompleto, que deixa restos de alimento e pode impedir a conclusão do exame
- Uso recente de inibidor de bomba de prótons, que reduz a quantidade de bactérias e pode gerar pesquisa de H. pylori falsamente negativa
- Antibióticos e sais de bismuto nas semanas anteriores, pelo mesmo motivo
- Sangramento ativo no momento do exame, que dificulta a visualização da mucosa
- Biópsias colhidas em número ou em locais insuficientes para avaliar atrofia e metaplasia
- Anti-inflamatórios usados nos dias anteriores, que produzem erosões e alteram o aspecto da mucosa
Quando procurar ajuda
Nas horas após o exame, garganta irritada e sensação de estômago cheio de ar são esperadas. Procure atendimento de urgência se aparecerem dor no peito ou na barriga forte e crescente, febre, dificuldade para respirar, vômito com sangue ou fezes muito escuras e com odor forte. Independentemente do exame, dificuldade progressiva para engolir, vômitos persistentes, perda de peso sem explicação, anemia ou histórico familiar de câncer gástrico são situações que pedem avaliação médica sem esperar.
Perguntas para levar à consulta
- O que foi encontrado explica os meus sintomas ou é achado sem relação com eles?
- Foram feitas biópsias e quando sai o resultado?
- A pesquisa de H. pylori foi feita e como devo interpretar o resultado?
- Preciso repetir a endoscopia para controle e em quanto tempo?
- Meu histórico familiar de doenças do estômago muda esse acompanhamento?
Perguntas frequentes
Gastrite enantematosa é grave?
Na grande maioria das vezes, não. Enantematosa quer dizer apenas que a mucosa do estômago estava mais avermelhada que o normal. É o achado mais comum das endoscopias e aparece inclusive em pessoas sem queixa nenhuma. Não é ferida nem câncer. O que dá significado ao achado é o resultado da biópsia, a presença ou não de H. pylori e os seus sintomas.
O que significa gastrite enantematosa leve de antro?
Que a porção final do estômago, chamada antro, apareceu levemente avermelhada durante o exame. É uma descrição visual de intensidade leve, e é provavelmente a frase mais repetida em laudos de endoscopia no Brasil. Não indica lesão profunda, e a conduta depende muito mais dos sintomas e da pesquisa de H. pylori do que dessa frase.
Hérnia de hiato precisa de cirurgia?
Quase nunca. Hérnias de hiato pequenas são comuns e a maioria é apenas acompanhada, com medidas para controlar refluxo quando ele existe. A cirurgia entra em discussão em situações específicas, como hérnias grandes ou refluxo importante que não responde ao tratamento clínico, e essa decisão é individual.
H. pylori positivo, o que significa?
Que a bactéria Helicobacter pylori foi encontrada no seu estômago. É uma infecção muito frequente na população brasileira, ligada à gastrite crônica e à úlcera péptica, e associada a um risco aumentado de câncer gástrico ao longo de muitos anos em parte das pessoas. O tratamento é feito com um esquema de antibióticos definido pelo médico, e depois se confirma se a bactéria foi eliminada.
Metaplasia intestinal é câncer?
Não. É uma alteração em que a mucosa do estômago passa a se parecer com a do intestino, depois de anos de inflamação. Ela é classificada como pré-neoplásica, o que significa risco aumentado em relação a quem não tem, não presença de câncer. A maioria das pessoas com metaplasia nunca desenvolve câncer gástrico. Extensão, localização e histórico familiar é que definem o intervalo das endoscopias de controle.
O que é esofagite grau A de Los Angeles?
É a forma mais leve da esofagite de refluxo nessa classificação: falhas na mucosa do esôfago com até 5 milímetros, que não se juntam entre si. É o grau mais frequente entre quem tem esofagite. O tratamento costuma ser clínico, com medidas para reduzir o refluxo e medicação definida pelo médico.
Quanto tempo de jejum para endoscopia?
O padrão costuma ser 8 horas sem alimentos sólidos, com líquidos claros permitidos até algumas horas antes conforme o serviço. Estômago com resto de comida impede a visualização e aumenta o risco durante a sedação, então o horário informado precisa ser seguido à risca. Confirme a orientação exata no local onde o exame será feito.
Endoscopia dói?
Feita com sedação, não. A maioria das pessoas não guarda lembrança do procedimento. Depois, é comum sentir a garganta irritada por algumas horas e a barriga um pouco estufada pelo ar insuflado durante o exame. Você precisa de acompanhante na volta e não pode dirigir no restante do dia.
Fontes e revisão
- Performance measures for upper gastrointestinal endoscopy: a European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) Quality Improvement Initiative. European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) , 2016.
- Management of epithelial precancerous conditions and lesions in the stomach (MAPS II): ESGE, EHMSG and ESP Guideline update. European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) , 2019.
- Management of Helicobacter pylori infection: the Maastricht VI/Florence consensus report. European Helicobacter and Microbiota Study Group, publicado em Gut , 2022.
- IV Consenso Brasileiro sobre infecção por Helicobacter pylori. Núcleo Brasileiro para Estudo do Helicobacter pylori e Microbiota, publicado em Arquivos de Gastroenterologia , 2018.
- Endoscopic assessment of oesophagitis: clinical and functional correlates and further validation of the Los Angeles classification. Gut (BMJ) , 1999.
Escrito por: Equipe editorial Entenda Meu Exame
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